O mestre do tempo
Para ser considerado arte, o cinema precisa de pessoas como Wong Kar-wai. Precisa de pessoas que acreditem no ofício de cineasta como oportunidade para repensar o homem e o mundo. Se um artista tem capacidade de transportar o espectador a outros universos, os mestres conseguem nos transportar a um imaginário particular, onde nos surpreendem com a imagem refletida de nós mesmos. Com dez longas rodados em 22 anos dedicados a histórias de amores frustrados e à experimentação estética, o realizador chinês revela o que somos e como somos de formas inesperadas.
Com a determinação de enfocar homens e mulheres em busca de alguma satisfação, ele encontra as contradições das relações interpessoais no contexto contemporâneo. Somos como o jovem protagonista de Dias Selvagens, que perde a chance de amar e ser amado porque se julga diferente dos outros; somos como os solitários de Amores Expressos, que esbarram em novas possibilidades de redenção emocional a todo instante, mas custam a perceber isso; somos como os amantes inseguros de Felizes Juntos, Amor à Flor da Pele e 2046, que se afastam quando o que querem é o afeto um do outro.
Somos como esses personagens, que elegem artifícios mil para abstrair a realidade. Não é a fuga a essência de toda ficção? Cronista de corações partidos e do tempo que passa e deixa marcas, Kar-wai não condena com juízos de valor os jovens, solitários e amantes, ele se compadece deles. Não é condescendência, é simplesmente generosidade. Graças a isso nos rendemos a tipos cativantes em sua banalidade, embora sem virtudes notáveis. É o caso do policial 663, de Amores Expressos: ao deparar com o apartamento inundado, ele acha que o imóvel chorou pela partida de sua namorada. Ora, por que não?
O espírito lúdico com o qual Kar-wai molda seus personagens é o mesmo espírito que ele adota ao manipular o tempo das imagens, as inserções musicais, os diálogos e situações. Trata-se de um diretor raro, daqueles que utilizam todos os recursos possíveis pelo prazer de se expressar, e não para atender expectativas e/ou alimentar o senso comum. Kar-wai entende a manifestação audiovisual como uma extensão dos sentidos, dos sentimentos e da memória, três elementos que ele ativa insistentemente com seu cinema pulsante. Três elementos imprescindíveis para o entendimento da experiência humana.
Gustavo Galvão
Cineasta e curador
Fonte: http://www.cineastascontemporaneos.com.br/